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19.8.13

paraguai --> méxico. e outras coisas

NiHao

Estou na Chinaaaaaaa (é enorme), e o que faço aqui só Deus sabe. Desculpem, começo logo com disparates. Ninguém sabe o que faço aqui. 

Acabei a viagem nas Americas. Estive em casa umas semanas; vendi o carro, acordei ressacado um dia e comprei um voo para longe. O senhor Josh Homme chama-lhe a “bittersweet curse. Nothing feels better then going home, and nothing feels better than leaving home”. E é disto que sofro, e astigmatismo. O português do senhor não é o melhor, por isso fica em estrangeiro, perdon.

Da última vez que escrevi, estava no Paraguai, e o resto da viagem, até ao México, correu bem, ao contrário do que temia, felizmente. Passei por países com má fama, por cidades que estão no topo da lista mundial das mais violentas, mas nem um arranhão. 

Para terem a noção da minha preocupação, antes de partir até fiz um testamento. Além dos cacarecos, as coisas, que distribuí ao calha, como se dão brinquedos num orfanato na altura de Natal, distribuí também as ex-namoradas. Todas as minhas namoradas sempre foram muito cobiçadas pelos meus amigos, mas, devido ao código de honra entre homens, estavam fora do seu alcance. Não se toca na mulher de um amigo, nunca, nem depois de este ser esquartejado em El Salvador. 

Na verdade, não é bem assim, há três excepções que podem anular o honrado pacto: por desejo final do possuidor da ex (em testamento, como foi o caso), se o Dalai Lama não voltar a reencarnar e quando a igreja católica admitir que tem saudades do cheirinho a pessoas queimadas em praça pública. Num mundo ideal, as ex não têm voto na matéria, mas num mundo ideal os muçulmanos também não deveriam pilotar aviões e sabemos que não é bem isso que se passa. Às vezes tudo dá para o torto.

E assim foi, deixei uma ex a dois companheiros e a outra, a gorda, a quatro. Agora eles que se amanhem, pensei. 

As coisas ainda estiveram tremidas. Em Buenos Aires fui terrivelmente assaltado por um gajo estranho com um penteado fora de moda. Ainda tenho pesadelos. Andava descansado a passear, a “sentir a cidade”, como dizem os turistas chatos, quando um penteadinho me roubou um pacote de lenços de papel da mochila. Conheço alguns espertos que só lêem isto para depois criticar e dirão que um pacote de lenços "não é nada" e eu sou um “mariquinhas”, mas estava constipado e o pacote tinha 9 lenços, estava praticamente cheio. Lenços dos bons, ainda por cima, daqueles de folha dupla, não dos que se desfazem ao primeiro assopro. Há uma senhora no meu bairro, na Madragoa, que passa os dias com o braço de fora da janela a enxugar o seu lenço de papel. Lá descobriu um que gosta e há anos que usa o mesmo. Ela compreende-me, aposto.
Resultado: fiquei inconsolável e a fungar por uma semana. Se depender de mim, não volto à Argentina. Tenho medo. Há muita gente que morre por gripes mal curadas.

Mas sobrevivi, e já inutilizei o testamento. Assoei-me a ele.


Depois de uma noite às cabeçadas na janela de um autocarro paraguaio, cheguei à Bolívia. Para minha surpresa, tinha o Evo Morales e o seu helicóptero à espera na fronteira. Veio dar-me “uma carona”, disse. “Agradeço muito, e custa-me recusar um favor daquele que, desde da morte o Kadafi, tem o título de presidente mais bonito de todos, mas eu nunca voo durante estas viagens. Tenho de continuar no ônibus”, expliquei. Passou-se, e começou a insultar-me, chegando ao ponto de dizer: “... e estás a ficar careca, ó bimbo, não vale a pena tentares disfarçar. És um piroso, pobre e mal agradecido”. Fiquei lixado da vida, sou um pouco inseguro em relação ao meu cabelo e de cada vez que me vejo ao espelho lembro-me do dia em que estarei com um aspecto tão acabado como está o meu pai agora. Desatei ao gritos: “Vai-te embora, ó índio. Ninguém te pediu boleia. Vai mas é pentear macacos”. Mas o caraças ainda gozou, “Toda a gente sabe que os macacos só se penteiam de madrugada, no fresco, depois ficam agitados e ninguém os agarra. Seu burro”. Fiquei sem resposta, de facto, não sabia. Retribuí com um “então vai dar banho ao cão”, mas ninguém ouviu, a batalha estava perdida. Ainda avisei: “nem tentes pôr os pés em Portugal, nem na Europa, não serás bem-vindo”, mas não ligou puto, e cada um foi para o seu lado. 

Ele inaugurou uma estrada, só para justificar o combustível, e eu enfiei um boné e entrei no autocarro. O resto é história.


Até Cancun foi uma viagem santa. Pouco mais fiz do que conhecer pessoas, praias, restaurantes e cafés, e o que eles vendem. Para quem falar espanhol e não se parecer com um gringo, viajar na América do Sul e Central é tão fácil como passear por Espanha. 
Fiquei com muita vontade de voltar à Colômbia e ao México, os países que mais gostei, mas as diferenças entre todos eles não são gigantes. 
Os espanhóis não brincaram durante a colonização. Entraram a matar (literalmente). Em pouco tempo tinham o continente ocupado, e ficaram com a maior parte do bolo. Aos portugueses, mais lentos na investida, apenas sobrou a fatia com a fava, o tal de Brásiu.

Um truque bastante útil para viajar nesta zona, que possivelmente não encontram nos guias, é, numa bicha do multibanco ou correios, gritar “Espanhóis! Vêem aí os espanhóis!”. Depois é vê-los fugir em todas as direcções. É lindo. Deve ser instinto, acho que nascem com aquilo. Dá um jeitão.

O estranho é que sei mais sobre as atrocidades cometidas pelos nuestros hermanos do que pelos portugueses durante aqueles anos de glória. 
Na escola obrigaram-me a decorar os nomes de todos os reis e navegadores, quem eles levavam para a cama e os filhos que pariram, os novos sítios onde espetavam o padrão e as datas exactas em que o faziam. Uma trabalheira. Sobre as asneiras cometidas não houve tempo de ensinar. Explicaram que tinhamos imensos tupperwares com especiarias e barcos com escravos, mas depois tocava para o recreio, acabava a lição. Demorou muito tempo até entender que os tais “escravos” eram mesmo gente, iguais aos meus colegas de recreio, e não coisas, como missangas ou batatas.

Passamos a vida a ouvir que se aprende com os erros, mas parece que o plano é esquecê-los, apagá-los da história, talvez para que possam ser repetidos sem os terríveis problemas de consciência. E são repetidos, naturalmente. Um pouco por todo mundo, basta abrir os olhos e ver que, de uma ou outra forma, ainda se tratam muitas pessoas como se fossem batatas.

Viram, não sou apenas uma besta insensível. Ia escrever um parágrafo estúpido, para animar, mas fui sério, crítico, e falei em favor dos coitadinhos. Isto com a idade vai lá. E, só falar, não custa nada.

Aqui, na Chinaaaaa, viaja-se ao contrário das Americas. Aqui sou diferente e não percebo ninguém. Suponho que também ninguém me percebe, ou andam todos a gozar comigo.
Assim como lá passei o tempo a fazer amigos, nesta terra não se passam dois dias sem ter de bater em alguém, e com força, não é só cachaços de aviso. Sou um gajo calmo, mas eles gastam-me a paciência como se estivessem a comer arroz - depressa e à bruta. Não tenho prazer nenhum nisso. Não se fique com a ideia que o faço por ser seguro, fácil e divertido malhar em pessoas de metro e vinte, como é bater em crianças, por exemplo. É horrível, não por ser anti violência ou escuteiro ou parvo, acredito que uma ou três lambadas resolvem problemas, mas por ser contra o esforço físico, por ser preguiçoso, por não ser completamente parvo. 
Isto não significa que não gosto deles. Gosto, têm piada, mas dão muito trabalho. Vamos ver quanto tempo aguento. Pelo menos posso andar com a máquina ao pescoço, sem que por isso o queiram cortar. Já tinha saudades.

Disparates... Querem informações úteis, paguem-nas com cerveja. 
Beijos de Dalian. 

E não esqueçam, nunca confiem em homens que usam risco ao meio. 




11.10.12

(sexy time)

iagshemash,

Cheguei ao "melhor país do mundo, todos os outros países são governados por meninas". Estou no Cazaquistão. Da última vez que aqui escrevi, viajava num ferry, uma coisa enorme que mais tarde descobri que era um barco. Desta vez, estou num comboio, e não passa disso, é apenas um comboio. Parece-me que este gostava de ser um cardume de atuns, mas duvido que algum dia consiga.

Há uns tempos, quando planeei ir de Tóquio a Lisboa sem ser picado pela mosca do Jet lag, decidi encontrar uma alternativa ao transiberiano. Toda a gente o faz, e por baixo, pela Rota da Seda, deve ter mais piada, pensei. Não sei se tem mais piada, mas comprovei que por aqui não vai ninguém, ou quase ninguém. A noite passada tive um vagão inteiro só para mim. No comboio de Urumqi à fronteira cazaquisteana parecia estar num filme de terror, num cenário arrepiante em que os barulhos estranhos se multiplicam à medida que a luz desaparece. Quando os carris não ajudam, o ruído nestas carruagens russas é ensurdecedor e mete medo. Mas dormi sem sobressaltos, como costumo fazer durante os filmes.


Acordei, por volta das 8, com a policia alfandegária chinesa interessadíssima em ver todas fotografias que fiz no seu lindo país. Depois de 45 minutos a bisbilhotar o meu computador, deram-me os parabéns pelos auto-retratos mais ousados, os nus, que prometi enviar por email, e carimbaram-me o passaporte. A seguir, vieram os polícias cazaquistãos. Reviraram tudo, devagar, à espera que lhes oferecesse uns trocos para pararem. É o esquema do costume. Mas há poucas coisas que me dão mais prazer do que ver estupores a inspeccionar minuciosamente as minhas cuecas pegajosas, e nem toquei na carteira. Até a cama desfizeram, os salafrários. Deu tanto trabalho a fazer. Mas nem tudo foi mau, o pastor alemão era simpático. Suspeito que a partir de agora o Borat (chamei Mondego e Tejo aos policias) vai andar mais interessado em encontrar bolachas com creme de baunilha do que bombas e droga. Sei que não posso dar doces aos cães, foi só desta vez. Eu adoro os animais.


Na primeira paragem cazaquistaneza, onde comi uma bela caldeirada de cabrito, entrou mais gente. Passei a dividir o compartimento com um militar, o Akelbek, que terminou a folga e está a regressar ao trabalho (bater a pala), e com caixas com garrafas de álcool chinês, que nos pediram para esconder debaixo dos bancos. Contrabando, segundo o Akelbek, mas "nhiêt probliémi, ok ok". Rapidamente conhecemos mais gente e, de um dia para o outro, deixei a solidão do cenário de terror para dormir num café-cabeleireiro. Não percebo nada de nada das conversas, mas gosto deles, são divertidos. Já prometi voltar. Até estou convidado para uns dias de caça a lobos e ursos. Que horror, estarão a pensar. Mas não, a caçada é a cavalo e é tipo "sniper", de longe, então não há perigo nenhum, não precisam de se preocupar. Estou mortinho por mudar o tapete da sala.

No meio da confusão linguistica, porque entre todos não sabem mais do que 10 palavras em inglês, quando perguntei ao Akelbek se era casado, percebeu que eu me ia casar, e imediatamente se fez convidado para a festa. Está tão emocionado que sou incapaz de lhe explicar a confusão. Resultado: vou-me casar em 2013.

Aproveito para anunciar isto. Queridos pais, família e amigos ricos, estão convidados para o meu grandioso casamento. Realizar-se-á em Portugal, em 2013, assim que arranjar uma gaja. 
A minha mãe deve estar tão radiante como o Akelbek.

Hoje de manhã dei umas voltas em Almaty, a maior cidade do país, que é verde, moderna e organizada, onde me obrigaram a ver uma entrada de metro, em funcionamento desde 2010, e continuo no café-cabeleireiro por uma paisagem de estépiê, estépiê, estépiê,… até à capital, Astana. Chego amanhã, que é quando espero enfiar isto na internet. Agora é lá que se enfia. 


Isto são três dias de viagem. Peguei no computador para escrever sobre os últimos dois meses e meio na China, e assustei-me. Para quem não está habituado a escrever, resumir dois meses de viagem custa mais do que atar um dente a uma maçaneta e dar um pontapé na porta. Vou tentar fazer por partes. Estou em passo acelerado até casa e vou ter muitas horas em comboios e autocarros, deve dar qualquer coisa. 

Até breve. Beijos


25.7.12

Japão e Coreia do Sul


Ora viva,

Estou no mar. No Amarelo, segundo consta. E não está fácil, o chão abana, daqui a bocado borrifo qualquer coisa. 
Saí de Incheon, na Coreia do Sul, ontem, e faltam umas horas, daquelas que parecem anos, para chegar a Qingdao, algures na China.

Não tenho andado nada bem. Há uns dias comecei a sentir-me estranho, fraco, com princípios de camoecas, e fui a um médico que, em coreano perfeito, para que não me escapasse nada, disse, "Sr Elias, tem uma tendinite no baço". "Ai maezinha! Já fui", pensei logo. Desconhecia este tipo de tendinites mas o senhor mostrou-me as suas notas sobre os exames realizados e, apesar de não as perceber, vi que era um profissional experiente, de toda confiança. É que tal como os nossos médicos, escrevia em riscos, e quem transforma estes caracteres em linhas rectas não é um novato qualquer. 

Receoso, perguntei: "Quanto tempo tenho, Sr Dr?". "Lamento informar, mas tem uns 5 minutos. 10, no máximo". "Quê? Só? Caramba, tinha tanto por fazer, tanto por experimentar. Nunca bati num espanhol, imagine", desabafei desesperado. "Pois, sabe, é que marquei uma consulta para agora e o paciente já está à espera. O espanhol terá de ficar para a próxima visita". "Ufas, assustou-me. Mas diga-me, isto é falta de potássio, não é? Tenho comido poucas bananas". "Não, disparate. Isso é falta de Japão", diz sorrindo. "Ahhh. E tem cura, Dr?". "Ora bem...", murmurava ele enquanto passava a receita, "Primeiro, para as dores, chore, chore muito, ajuda. Para tratar a tendinite, tem duas hipóteses: plantar batatas ou voltar para o Japão"."Mas não posso plantar batatas, dá-me umas pontadas nos rins por andar baixado, e com o baço neste estado, é impossível. Ir ao Japão, é o mesmo. Já me despedi das pessoas japonesas, antes morrer do que voltar atrás com a palavra. A minha palavra é a minha honra, e só tenho isso e três pares de cuecas". "Então, chore", diz ele. "E veja lá, não reze, é uma perda de tempo". 
Como os homens não choram, imaginam o meu sofrimento nestes dias. Sou um homem muito triste.

Nunca tive uma atracção especial pelo Japão. Conheço pessoas que sim. Assim como alguns gostam da América, dos hambúrgueres, há gente que em bebé rebolou em sushi e adora tudo o que é japonês, mesmo sem nunca lá ter estado. Uma boa metade delas ainda cheira a peixe.


Uiiii… pausa. Tenho de ir olhar para o horizonte. Continuo mais tarde.
Voltei. Três dias mais tarde. Quando desembarquei, meio mareado, decidi beber uma cerveja para desenjoar. Depois de ter pago 26 cent (2 yuan) pela primeira caneca, lembro-me de muito pouco. Estes sacanas até vendem cerveja a peso, em sacos de plástico com pegas, e bebem aquilo por palhinhas. Pelo menos não perdi as calças. Estou a evoluir. Mas devo ter comido coisas estragadas, hoje não me posso afastar mais de dez passos da toalete. Aproveito para acabar isto. E sinto-me melhor da tendinite. Bem bom.


Ia no Japão...

Eu não ligo ao sushi, nunca liguei, sou de outros sabores, e o cheiro a peixe é de não me lavar cá em baixo.
Há uns 20 anos os meus pais tinham carro japonês, um Mazda 323, que, dependendo do lado que batesse o sol, ou era verde ou azul. Até aos últimos dias, quando já cresciam cogumelos nos tapetes, nunca falhou. Impecável.
Mais ou menos na mesma altura, vi o Império dos Sentidos na RTP2. Lá calhou. A partir daí os japoneses ficaram os tipos certinhos com uma pancada meio estranha, mas nunca mais tive grande curiosidade pelo o país, interessei-me por outras coisas. Até que lá fui, mais ou menos por acaso, em 2009, e fiquei morto por voltar. 
Gosto das pequenas excentricidades, dos pormenores, das soluções geniais para as coisas simples do dia a dia, do sentido estético único, de uma busca pela perfeição, até das vénias, da atenção. E ao mesmo tempo tem piada saber que eles estão cheios de falhas, longe dessa perfeição. São gajos que já cometeram todas as atrocidades que encontramos nos livros de história, têm páginas só deles, e continuam a cometer algumas. Os seus vizinhos são os que mais o sentem. Se a nós, ao homem branco, tratam bem, baixam a cabeça, é porque apanharam umas lambadas até ganharem respeito. Começou com bêbados portugueses que desembarcaram em Nagasaki com umas espadas que cuspiam balas, até aos americanos, com outras balas. Mas aos coreanos e chineses olham bem de cima, em bicos de pés, e estão sempre prontos para lhes passar a perna. Ainda no século passado a Coreia foi declarada uma colónia japonesa, quando as nossas já começavam a perder o interesse, e a China foi invadida. 

Mais do que qualquer outro povo, eles têm uma capacidade de se juntar por um objectivo único, como um rebanho, não questionando as razões, a autoridade, e isso tanto os torna perigosos como capazes de, em poucas décadas, como aconteceu depois da última grande guerra, reconstruir o país.

Foi um pouco isso que eu notei desde a última visita. Principalmente em Tóquio, estão mais focados, concentrados, mas talvez menos expansivos e alegres. Nestes anos, a crise económica agravou-se, tiveram o sismo, tsunami, fuga de radiação de uma central nuclear, e no entanto ninguém me falou sobre isso, muito menos se queixou, e estive Sendai, a cidade mais próxima do epicentro. Parece que sabem o que têm de fazer para recuperar, e que não é com conversa que lá chegam.
Não sei se já há resultados, pouco tenho acompanhado as noticias, mas este ano Tóquio foi considerada a mais cara cidade do mundo, e talvez isso já seja um sinal da recuperação. Ou não, pode tornar-se uma Luanda.

Esta conversa não me faz bem nenhum à tendinite. Um dia destes, volto.


A Coreia é outra história.
Não gostei da Coreia. Sei que estou a dar cabo do turismo deles, mas azar, cê-lá-vi.
É um país com muitas influências do Japão e da China, mas é 73 vezes menos interessante do que ambos. Não é um sítio porco nem limpo, não é caótico nem organizado, as pessoas não são brutas nem muito educadas,… É assim assim. Está no meio, como a virtude, a última coisa que um viajante procura.
É fácil compreender isto pelos carros. A industria automóvel de um país pode dar algumas indicações sobre quem lá vive (Em Portugal construímos carros alemães). Nunca se ouviu: "Olha este Hyundai, que maquinão!", ou "O meu sonho sempre foi conduzir um SsangYong." Mas ouve-se, "Olha um Kia, tem uma estética agradável e uma boa relação qualidade/preço". São aborrecidos.
Agora, com a Samsung e a LG, estão no topo das comunicações móveis, da electrónica mundial, mas nunca houve paciência para os cromos dos computadores. São úteis, como as panelas, mas só servem para aquilo.

As influências já não são só chinesas e japonesas. Em Seul, principalmente nas zonas universitárias, os catraios de vinte e poucos anos são todos iguais, tudo o mesmo. São aquelas pessoas que depois de terem tudo o que precisam, de comprar o que não precisam, começaram a consumir coisas que não gostam. É uma tendência global. É a malta que vai passear os macbooks para os Starbucks e afins - sítios que vendem café a quem realmente não gosta de café -, onde se ouve uma coisa atroz chamada smooth jazz - música para quem não gosta de música -, e conduzem, ou gostariam de conduzir, Toyotas Prius - os carros para quem não gosta de carros. Esta lista continua, e as marcas não param de crescer, é o negócio delas. Visita-se o Starbucks em vários países, em vários continentes, e não é facil descobrir diferenças na maneira vestir, de estar, dos clientes. É uma seca.

Chega de Coreia. Não é especial. O Japão e a China, sim.


Vou passar o resto do dia a aprender a escrita chinesa. Usarei um método revolucionário, rápido e simples, que me lembrei há minutos quando carregava nos botões de um elevador. Eu explico.
Há muitos milhares de anos os habitantes da Ásia eram cegos, tinham os olhos fechados, as pálpebras coladas, eram conhecidos como "os alforrecas", e, naturalmente, o sistema de leitura que usavam era o braile. À medida que foram evoluindo, abrindo do olhos - processo ainda não terminado, estão na fase que cientificamente se designa por ponto ganza -, houve uns iluminados que pegaram numa esferográfica e no alfabeto braile e começaram a unir os pontos. Um processo não muito diferente dos desenhos que as crianças fazem, unindo pontos numerados até formar um coelho ou uma vaca. É fácil perceber que, por exemplo, de se chega a . Por ser o início e terem total liberdade, apareceram uns artistas que juntaram várias letras braile e fizeram rabiscos desnecessários, complicando tudo, e criando os complexos caracteres usados actualmente. Mas a base é só uma, o braile, e é simples, até um cego entende. Estudando-o profundamente, chegarei ao significado dos gatafunhos chineses, e depois é um passo até começar a falar. Tenho quase a certeza que funcionará.

Teresa, parabéns. És a maior.
Beijos


21.3.11

hong kong, macau, malásia


estive em hong kong, macau e na malásia. escrevo com uns dias de atraso mas mais vale tarde do que nunca, e quem semeia ventos colhe tempestades, o que, neste caso, é irrelevante.

passei lá tanto tempo a não fazer nada que não tive oportunidade de olhar para o blog e enfiar qualquer coisa. isto pode parecer que não faz sentido, mas faz. certamente mais sentido do que, por exemplo, ficar alérgico a diabetes quatro meses depois de se ser decapitado. isto sim, é ridículo. ficam 3 fotografias sem legenda.