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23.2.15

do cairo a harar



Ora viva,

Não estou de muitas conversas, isto vai ser curto.
Acabou a vadiagem. Faltam umas horas para voar, ainda posso ser atropelado, mas até agora correu tudo bem. Houve alturas mais difíceis, encontrei algumas pessoas parvas e saí morto de muitos autocarros, mas, como sempre, lava-se bem a cara e passa, esquece-se tudo, a viagem continua. 
Foram dois meses óptimos, principalmente os dias no Sudão, a terra estranha onde todos os homens se agacham para rezar e urinar. Dois meses que pareceram seis, porque aqui os dias demoram a passar, as semanas não acabam.
Na quinta-feira, em Harar, onde a Etiópia se encosta à Somália, fui atacado por um milhafre que quase me levou o telefone e dois dedos; chamei hienas numa lixeira e dei-lhes carne de camelo; enxotei bandos de espertalhões demasiado interessados no que tinha nos bolsos; apenas andei em carros com mais de quarenta anos, porque todos taxis são Peugeots 404, que deixaram de ser produzidos em 75; bebi canecas de cerveja por €0,40 com cristãos e muçulmanos na mesma mesa e nunca falámos de deus; passei a noite sentado na cama, com a luz acesa, para não ser comido pelos mesmos insectos da noite anterior; e, durante dez horas, fui esmagado por vinte e duas pessoas numa Toyota Hiace que preferia sempre o lado da estrada onde havia um precipício, talvez para ver melhor a paisagem.
Há uma bela música em que o Dylan diz que "o tempo passa devagar quando estamos perdidos num sonho", mas a verdade é que não tenho imaginação para sonhar com dias assim, tão cheios, tão longos. Preciso mesmo cá vir.
Não me importava que o avião se perdesse e aterrasse outra vez longe de casa, mas nem eu tenho tanta sorte. 
Beijocas.

31.1.15

o sudão



Buongiorno principessas, 

Estou em Cartum, a única capital da República do Sudão. É inverno e está um calor dos tomates. 
Sei que alguns acham desnecessário, deselegante, começar assim o texto, mas estou tão contente por poder usar a minha expressão preferida - calor dos tomates-, numa das duas variantes, que não resisto. Sou fraco, e pouco elegante. Se calhar é asneira, mas fica assim.

Estão 38 graus à sombra, por exemplo, de um prédio.

Depois do Cairo,  passei 4 dias em Dahab, uma cidade pequena na península de Sinai, onde vi um aquário gigante quando enfiei a cabeça no mar e onde senti o cheiro a dinheiro da Arábia Saudita, a 16 quilómetros, do outro lado do golfo de Aqaba. Cheirava a gasóile. Há outros dinheiros com outros cheiros.

A seguir, fui para Assuão, no sul do Egipto, junto ao Nilo, que é uma coisa tipo o Guadiana mas que se desloca em sentido contrário. Para minha alegria, Assuão continua com uma bela frota de táxis e mal tirei os pés do comboio, enfiei-os num Peugeot 504 bem bonito.

Desde a revolução de 2011, os turistas fugiram para países com menos noticias nos jornais e estas cidades perderam a sua principal receita, estão decandentes e tristes, principalmente Dahab.

A passagem entre Egipto e o Sudão está, deste há pouco mais de um ano, mais fácil. Em vez do barco semanal, onde viajei há 3 anos, agora há autocarros diários e a viagem é mais cómoda e rápida, apesar de ter demorado 14 horas em vez das 5 anunciadas - é um Bem-vindo a África. Ainda se cruza o lago, só para matar saudades, e, apesar do óptimo aspecto exterior, o autocarro vai cheio até ao tecto, como ia o barco.

O Sudão.

Quando anunciei que vinha ao Sudão, a reacção geral foi "uuuuhhhh cuidado" e um olhar como se o mundo, o meu, acabasse. Algumas pessoas chegaram perguntar se podiam herdar as minhas guitarras. Uma amiga, a Carla (nome fictício), até teve um mau pressentimento em relação a esta viagem e anda muito preocupada. Tem estes pressentimentos desde criança, é a sério. Curiosamente, oferece-me sempre um bilhete de lotaria no aniversário e nunca vi um chavo. Também os tenho, os pressentimentos, ou algo parecido. É verdade. São estranhos. São para daqui a 400 anos, não servem para nada. Coincidência, estou a "receber" um. Aqui está: No ano 2415, por volta das 3 da tarde, um arqueólogo vai escavar a sepultura do Álvaro Cunhal e morrerá subitamente com um ataque cardíaco. Morrerá de susto, por ver uma caveira com sobrancelhas. Era só isto. Percebem porque é que digo que este dom não serve para nada? Mal não faz, mas é inútil.
Adiante.
Onde eu queria chegar é que a imagem generalizada que se tem do Sudão é errada, é falsa. Com maus pressentimentos ou sem eles, viajar aqui é dificil e as probabilidades de ter um acidente ou apanhar uma doença horrível é, como em qualquer país muito pobre, maior do que no nosso cantinho. Mas, e esta é a parte importante, se acontecer, ainda bem que é aqui porque me ajudam de certeza. Estes gajos são porreiros (foi o melhor que consegui - gajos porreiros. parou o cérebro). Pronto, são sérios, simpáticos e simples. Têm os 3 's'. Não posso dizer o mesmo em relação a muitos sítios onde passei. Muitos sítios ricos.
E, para um visitante, é seguro. É impossível viajar para as zonas de conflito e a criminalidade é muito baixa. Isso sente-se, e é um enorme peso que não se carrega na mochila. 

Mais. É um país muçulmano muito conservador, mas é ignorante associar o povo sudanês com terrorismo ou radicalismos islâmicos. Estas pessoas têm de trabalhar muito para comer, não têm tempo para andar a correr atrás de infiéis, isso é um desporto de ricos. Há desses ricos aqui, assim como em Paris, por exemplo, e ninguém deixa de visitar a torre porque tem medo deles. 
Como em todo o lado, não é tudo preto ou branco. Os dois homens com quem divido o quarto, um veterinário e um que não fala inglês, juntam-se com amigos e bebem sumo de romã fermentado. Chamam-lhe "cherbot", e é péssimo. Bebem às escondidas, como miúdos, com o sorriso maroto de quem está a fazer o que não deve, porque aqui é proibida a posse e o consumo de álcool. E rezam várias vezes ao dia, como bons muçulmanos, mesmo ao fundo da minha cama, a centímetros dos meus pés. Têm tanta paciência para fundamentalismos como eu, não o podem é dizer muito alto. Esse é o problema. Liberdade de expressão, liberdades, nicles batatóides.

Para os turistas é o mesmo. Há regras, muitas, há registos obrigatórios na polícia, licenças para viajar, para fotografar, e quem não as cumpre vai preso. Vai mesmo.
Os senhores que têm o poder não o querem perder, e isso significa controlar tudo e todos. E depois exercem-no à bruta para não terem chatices no futuro. 
Sem esses tipos não seria um país ideal, entre outras coisas, tem o termóstato partido e igualdade de género e de culto é uma anedota, mas seria muito melhor. 
Às vezes penso assim. Imagino como ficariam os países se lhes alterasse algumas características próprias. Por exemplo, imagino sempre o Brasil sem brasileiros, com outros gajos. Era perfeito. É recorrente sonhar com Pedro Álvares Cabral a chegar agora às Américas e ouvir da praia "Oi galera, tudo jóia?", e rapidamente gritar para a tripulação "Dar a volta, vamos embora, esta fica para Castela". Depois virar-se para terra, "Caravela, burro!"........ "Oi?". É um sonho, claro.
Enfim, o mundo é como é, e é interessante por isso.


Isto já vai demasiado longo. Segundo a Carla, é provável que não volte a escrever, então tinha de deixar o último sermão.

Se alguma vez sonharam dizer "Desculpe, tenho de ligar urgentemente para o Sudão", força, +259 992815486, é o meu número sudanês (nunca imaginei que diria isto na vida). Atendo sempre com "Salamalecum?".

Espero que esteja tudo bem na terrinha. E, mesmo que o tempo esteja cinzento, muita chuva e um frio dos tomates, alegrem-se, o Bob Dylan tem um disco novo.
Vou fazer uma mise. 
Beijinhos




6.1.15

egipto, outra vez



Olá da terra onde os gatos são sagrados.

Voltei. Estive aqui há três anos, quando desci até ao Cabo, e o plano é o mesmo, mas o orçamento não, apertou. Devo descer o Egipto, o Sudão, chegar à Etiópia, e depois se vê. Se poupar muito e roubar alguém, talvez vá até lá abaixo. A viajar não é importante saber onde acabo, qual o destino, o interessante é o caminho para lá chegar. É como a vida. (Tumba! Lições de vida do Pedrinho - Compilação das frases mais bonitas, Vol 2)

O Cairo continua velho e castanho, coberto de pó e fumo, maravilhoso. Há outras cidades muito feias, como Jacarta e Chennai, mas não têm piada. O Cairo tem-na toda, é um feio com charme. É como se o propósito das 20 milhões de pessoas que cá moram fosse garantir que a cidade fica bem ao lado das pirâmides, que tudo pareça pertencer à mesma época. Eles fazem-no bem, com pinta. E continua confuso e barulhento. Quando acordo e oiço as constantes buzinas, o primeiro pensamento é que o Benfica ganhou o campeonato outra vez. Sempre, não falha. 
O pior é que se vê cada vez menos Peugeots 504, a minha viatura favorita de todo sempre, aos poucos substituídos por carros coreanos todos iguais, que, julgo, são oferecidos quando se compra um telemóvel. Chegava a apanhar taxis 504 só para dar uma volta. Havia tantos. Agora, anda-se de Samsung. 
Vou ficar mais uns dias, depois é para sul.

Descer África, por terra, em transportes maus e com alojamentos piores, onde não se encontram daquelas pessoas que se cumprimentam só com um beijinho, foi uma das coisas mais difíceis que fiz, foi uma brutalidade, mas valeu a pena. A outra coisa foi passar a ferro três camisas, que acabaram na 5àSec. Então, custou tomar a decisão, fazer a mala e partir. 
Se da primeira vez tive medo por não saber o que ia encontrar, agora tenho porque sei. Estou a falar, principalmente, das aranhas africanas, claro. Daquelas gordas que não morrem com o normal golpe de chinelo. Estúpidas. O pior é à noite. Já partilhei o quarto com baratas, ratos do tamanho dum palmo e pessoas bem feinhas, e, depois de fechar a luz, acabo sempre por dormir. Se aparece uma aranha peluda no tecto e se esconde antes de lhe atirar uma cadeira, é o fim, nem com o Vitinho. Uma vez, desisti, fui para o bar do hotel e adormeci bebedo ao balcão. Acordei já era dia, foi óptimo. E não fui o único. Pelos vistos há mais gente com pavor a aranhas. Bicho do demónio. 
Mas, desta vez, vai ser fácil. É a segunda. Lembro-me onde os autocarros param, lembro-me das fronteiras, das terras e zonas complicadas. Desta vez não vou ter histórias para contar, nada de confusões, apanho a auto-estrada. Não há aranhas na auto-estrada. A minha mãe, que tem 82 anos, não tem nada com que se preocupar. Ouviste? 
É mais fácil, também, porque devo encontrar a internet em qualquer canto. Graças a Deus, o wifi e os smartphones espalham-se mais rápido do que a palavra do Senhor, então posso mandar uma mensagem rápida quando preciso de partilhar, por exemplo, que as varejeiras dão luta a passar na garganta, arranham, assunto que normalmente não interessa a com quem me cruzo. Aqui, quando alguém sabe inglês, falo do Ronaldo e do Mourinho, de bola. É muito tempo sozinho e estás tretas novas ajudam. Mas é um sozinho diferente, africano, sem dramas. Vou explicar com uma história, e acabar, já vai longo.

Da última vez, no sul da Etiópia, naquela zona onde as pessoas só conhecem uma marca de arroz, o carolino USAID, apanhei um autocarro apertado durante 20 horas. Arrancou e, como no metro, meti os olhos na paisagem e a música nos ouvidos. Mas, uns minutos depois, a curiosidade do tipo do lado rebentou e passei-lhe os auscultadores. Passei também ao tipo de trás, ao da frente e ao pendurado na porta. Quando cada auscultador já tinha cera suficiente para envergonhar Fátima no 13 de Maio, decidimos partilhar aquilo com todos. Braço no ar, telemóvel no máximo e pouco paleio. Andava a ouvir o El Camino, dos Black Keys, que tinha semanas, e tocou umas 4 o 5 vezes, o suficiente para metade do autocarro me conseguir acompanhar quando cantava "I'm a lonely boy, I'm a lonely boy,...". Nessa altura, mesmo não podendo partilhar esta ramboia toda com ninguém (nem nos dias seguintes), a letra da música não fez grande sentido.
Desta vez, venho preparado. Raios ma partam se não cantar o "Azar na Praia", do Nel Monteiro, com coro africano móvel. Vai ser lindo.

E pronto. Bom 2015, adeus, é hora de ir sacudir o papagaio. Hoje faço anos. Muitos. No ano passado só me saíram duques, o que não é o fim do mundo, são tantos que é natural apanhar alguns com lagarta, então é bom começar este aqui, um sítio onde sou sagrado, e ter pela frente uma data de países onde ainda se usa papel químico. 


20.11.11

assuão - wadi halfa



Estou em Assuão. Antes, estive no Líbano e uns dias no Cairo. Amanhã, se acordar a tempo, vou para o Sudão.

Tenho pena de deixar o Egipto nesta altura, quando volta a aquecer. Estão marcadas eleições para a próxima semana e, na rua, a confusão já é grande. Mas a minha viagem é outra; está na hora de partir.

A vontade de escrever, de actualizar o blogue desaparece ao mesmo tempo que ando para sul, e é esse o caminho. São os ares preguicosos de África, ou a necessidade de desligar, de me desligar. Qualquer dia volto à carga, é só passar o deserto.

E está tudo bem. Tudo óptimo. Pela frente tenho 24 horas num barco africano, e depois não faço ideia. É para baixo.

11.11.11

cairo, luxor e hurghada (parte 2)


Estou em Beirute, mas isso pouco interessa. Vou escrever sobre Luxor e Hurghada, é a parte 2 - O regresso do janquinzinho maldito.

Do Cairo, onde estava no post anterior, apanhei um comboio para Luxor, que fica a umas 8 horas, lá pró meio do país,  nas margens do Nilo. Durante séculos foi capital da civilização egípcia então está cheio de coisas que atraem turistas. Coisas vazias, na sua maior parte. Os templos e túmulos há muito foram limpos e pilhados e o seu conteúdo encontra-se em museus e colecções privadas, espalhados pelo mundo. Abre-se a boca de espanto umas quantas vezes, mas tem-se a sensação que só nos estão a dar os lindos embrulhos,  houve algum espertalhão ficou com os presentes.
 
Para além dos turistas e dos arqueólogos de bolsos largos, curiosamente, Luxor também atrai terroristas. Gostam de todo o sul do Egipto, ao que parece. É seco, a humidade faz mal às bombas. Nos últimos anos têm estado mais sossegados, mas em cada explicação os guias, quase com prazer, juntam: "no ano X houve aqui um ataque com Y mortos e/ou Z raptados". Sempre traquinisses das piores. Mas não fui morto nem raptado, o que foi simpático da parte deles, e dois dias depois dei de frosques. Deixei um papel a agradecer, que terminei com "Amanhã vou para a Grécia, espero encontrar-vos lá. Beijocas". Tomem, gregos. 


A seguir, Hurghada, junto à costa. Um lugar feio, cheio de russos e resorts. Gosto de sítios feios (russos e resorts, passo), mas não foi isso que me levou até lá. Infelizmente, fui mergulhar.

Sempre achei que existem melhores formas de passar o tempo do que andar de fato colado ao corpo a ver peixinhos coloridos, e que até ter um screensaver no computador com uma animação a imitar o fundo do mar pode diminuir o ritmo de crescimento do bigode, mas há sacrifícios que valem a pena, e tinha aqui uma óptima oportunidade de fazer inveja ao meu pai. Era de aproveitar. O meu pai, o João, é um gajo que usa barbatanas em vez de pantufas, vê os filmes do Cousteau com a máscara metida (não sabe porquê mas vê melhor do que com os óculos...), só respira pela boca, sai da cama como se estivesse a saltar do barco, e tem um relógio de pulso a que chama "computador" (usa-o para medir a pressão do chuveiro), mas nunca mergulhou no mar vermelho. Ia ficar piurça de inveja ao descobrir que eu lá andava, e isso alegra-me.

Assim foi. Deixei a testosterona no bar do hotel e fui tirar um curso de mergulho. O mais barato que encontrei, naturalmente. Como não me afoguei vez nenhuma, não me arrependo da escolha, mas reconheço que é asneira poupar num curso destes, há demasiadas coisas que podem correr mal e convém estar preparado. Basicamente, fui lançado à água sem formação teórica e muito pouca prática. Tira a máscara, põe a máscara; tira a coisa que manda ar, volta a meter; sem atestado médico; não fiz o teste escrito, nada. Mas passei com distinção, e tenho um certificado que o prova.

Debaixo de água é tudo bonitinho, como mostram nas brochuras, mas o que não estava à espera, e por isso achei interessante, foi a confusão, o trânsito submarino. Junto ao meu barco estavam outros 15, e infindaveis no horizonte, todos carregados de tipos com botijas às costas. Lá em baixo eram cardumes humanos e um ou outro saco de plástico a voar por perto. Parecia o Cairo. Até tive saudades. É pena não haver esplanadas submersas porque passavam-se ali umas horas agradáveis a ver os gajos nadar, borbulhar e estragar corais.

Depois dos mergulhos vinha o triste ritual das cadernetas. Os "meus colegas", gajos e gajas com idade para ter juízo, sentavam-se em círculo e apontavam os peixinhos que viram, a temperatura da água, as profundidades, comparavam cromos mais antigos e agendavam outros para juntar à colecção. É deprimente ver alguém com mais 13 anos excitar-se com uma caderneta de cromos. Antes ver um puto a fumar. Aquela lamechice mexeu tanto comigo que cheguei a vomitar, várias vezes, pelo nariz, e o mar estava calmo.
Já passou. Apaguei as fotos onde aparecia naquelas figuras ridículas e estou a embebedar-me regularmente para que este episódio se apague da memória. Matar células. 


Saí de casa há 2 meses, o que não é importante. A Ana e a Bárbara fazem anos, e isso sim, é importantíssimo. Parabéns.
Domingo volto ao Cairo.
Beijos


6.11.11

cairo, luxor e hurghada (parte 1)


Já não escrevia aqui há algum tempo. Para resumir: estava no Cairo, saí, e voltei. E correu tudo muito mal. Aliás, como sempre. Vivo um martírio, е só vai piorar. (acabei de ver os jornais portugueses e percebi que para manter este blogue actual, no seu tempo, tenho de escrever de uma forma mais fatalista, mais testemunha de jeová, como se o fim do mundo já tivesse acontecido e só estamos a fazer tempo até que ele exploda, de vez).

Do princípio, então. No Cairo, antes de voltar ao Cairo. Foram dias horríveis! (bom começo)

Fui, finalmente, ver as pirâmides. Já as tinha visto na televisão, num programa de culinária, então não foi grande a surpresa. Não esperava encontrar esferas. Se estivermos cá pelo bairro, vale a pena a visita, se não, há outras coisas para fazer primeiro. O lado piroso dos suvenires, das excursões, dos trafulhas e dos passeios de camelo no "deserto", e a imagem delas, vistas de fora do parque piramidal, no meio dos prédios e carros, tem alguma piada. Infelizmente, não assisti ao espectáculo de luzes, que deve ser magnífico. A beleza dos focos de luz e lasers projectados na esfinge deve inspirar-nos até à velhice.
Voltei a encontrar o Nuno, que veio numa das excursões do cruzeiro para onde fotografa. Tinha estado com ele em Istambul, na China. Continua parvo, felizmente. Fez-me o belo retrato que está lá em baixo. 
Mas foi um dia péssimo. E a vida é muito triste.

Mais notícias más...

Quero ir ao Sudão, que é muito mau, está cheio de areia e pessoas ruins - ouvimos da imprensa e outras fontes esclarecidas. Podia bem viver sem ter pisado a Grécia, aquele país de esterco de que já falei, mas se não pisar e arrastar os pés pelo Sudão fico arreliadinho. Agora até há dois, o do Norte e o do Sul, ou, se olharmos de lado, um à esquerda e outro mais à direita. Por razões que demoram mais do que duas linhas a explicar, quero pisar o do Norte.

Para entrar, preciso de um visto, e passei uns dias a tentar tirá-lo. Nada. Na embaixada ouve-se o habitual "Espere ali", mas nunca se sabe para o que é que se espera, sendo o mais normal não se esperar para nada, nem sequer sermos atendidos. Quando aparece uma sudanesa jeitosa, fixa-se nela o olhar e passam-se bem umas 3 horitas naquilo, mas se não aparece nenhuma, é desesperante. Estive horas a ensinar português a outro desesperado, em troca de umas asneiras e frases de engate em arábico. Tudo o que consegui, além das úteis asneiras, foi saber precisava de duas fotografias tipo passe (que tirei e ficaram extraordinárias) e de um papel da embaixada portuguesa. Assim que lá entrei ouvi o Dino Meira cantar "Voltei, voltei. Voltei de lá. Ainda agora estava em França e agora já estou cá". Quase morri ali de saudades. Foi por pouco. Ainda me apanharam do chão. Mas depois de ser obrigado a ver o resto do programa da manhã com o Jorge Gabriel e a outra tipa gira que antes era loira, recuperei, e aguento mais uns tempos sem uma feijoada.
Amanhã volto a tentar. Como talvez seja possível comprar o visto na fronteira, não estou muito preocupado.

As outras tragédias ficam para depois. Estou a perder o hábito de estar em frente a um computador então farto-me depressa. Amanhã escrevo sobre Luxor e Hurghada.
E tem sido difícil encontrar ciber-cafés. Há uns anos tropeçávamos neles. As pessoas têm net em casa e os turistas, que raramente são pessoas, carregam um computador ou um iphone por onde andam. Deixou de ser bom negócio. Na Índia cheguei a ir a ciber-sapatarias e outros sítios estranhos, sempre com os teclados pretos, do suor e pó acumulado. Uma vez, em Caxemira, militares fizeram uma rusga séria, AK47s apontadas às cabeças, no ciber onde estava, e bisbilhotaram o que estavamos a fazer. Não se mostraram interessados com os sites roupa interior que eu estava a consultar e sairam sem se despedir. É uma pena perderem-se estas coisas.

Vou vestir a burca e almoçar. Não dá jeito a comer mas, a seguir, para palitar os dentes, é o céu. Posso chafurdar à vontade com a boca toda aberta, sem ter de me tapar com a outra mão. É importante manter uma boa higiene oral quando uso burca. Os maus odores concentram-se naquela zona e deixam-me meio zonzo.

Veijos


i

22.10.11

cairo


Boas notícias. Tal como desejava, está quentinho no Cairo.

Comecei a achar que as coisas iam correr bem ainda antes de partir, quando o tipo que se sentou ao meu lado no avião, aponta para a janela, e diz emocionado:
- Water!
- It's rain!, completei eu, mostrando que sou conhecedor de coisas relacionadas com este líquido, e fluente em francês.
Ele pareceu impressionado com a minha sabedoria, mas a conversa ficou por ali, e continuou a olhar para a janela enquanto suspirava de forma estranha.

Percebi que estava a lidar com um cidadão egípcio, pois tinha feições típicas de um descendente de faraó (era chupadinho como uma múmia), a pronúncia de um vendedor de tapetes, e um passaporte verde com as letras E g y p t, a doirado.

Deduzi também, voltando a usar os meus extraordinários poderes de observação, que era um homem pouco viajado. A sua reacção de espanto e alegria quando lhe ensinei como mudar a inclinação das costas da cadeira claramente indicava que era a primeira ou segunda vez que viajava numa aeronave daquele tipo, ou mesmo num autocarro construído nos últimos 20 anos. Praticou, durante quase toda a viagem, o que tinha acabado de aprender, mesmo perante o desespero da pessoa que viajava atrás, que era uma mulher.

Depois, como manda o António, foi só fazer as contas, completar o pazle. Conclui, brilhantemente, que o sítio para onde ia, de onde este cavalheiro raramente se afastava, era um sítio sem chuva, exactamente o que eu procurava e não tinha em Istambul. Era perfeito.
Quando aterramos, disse-lhe "Adeus, vai pela sombra", ele respondeu "Cristiano Ronaldo", e calcei as sandálias que estavam no fundo da mala. Estava calor no Egipto.

Ao contrário de todas as pessoas a quem perguntei antes de vir, gosto do Cairo. Há barulho, multidões, sujidade, trânsito, instabilidade, um certo caos que atrai um viajante como eu, um turista de esplanadas e praticante de trekking urbano. E é barato. Dorme-se por 5 euros, come-se por 2 e anda-se de metro por 12 cent. Como tenho poupado na cerveja (sóbrio há 5 dias), decidi ficar num quarto ultra luxuoso de 10 euros, um "single private" com duas camas e com o "WC ensuite" que podem ver na fotografia. Invejosos?

No primeiro dia, visitei o museu. Normalmente não ligo a nada com mais de 50 anos, mas devia estar com febre, ou estou velho, e até dei por mim a tentar decifrar hieroglifos e enfiar-me de fininho em tours para ouvir as explicações dos guias, de tão interessante tudo aquilo me pareceu. Numa das alas, estão expostos todos os tesouros de Tutancámon, o faraó que morreu adolescente, retirados do seu túmulo, em Luxor. Fiquei fascinado com a inteligência do rapaz, da forma como tinha conseguido esconder as playboys e os papiros porno, que, mesmo passado tanto tempo, com vários peritos a vasculhar, ainda não tinham sido descobertos (as minhas revistas demorariam uns 3 minutos a aparecer). Mas o meu fascínio não foi longo. Numa sala mais à frente estavam as suas colecções de colares, pulseiras, frascos de perfumes e óleos,... Era claro que este adolescente faraó não ligava a playboys, e devia gostar mais de vestir o Ken do que a Barbie.
O estado degradado, decadente, do museu, que recebe milhares de turistas, e, portanto, tem uma receita que o permite manter-se, deixou-me curioso para ver outros espaços públicos com menos recursos.

No dia seguinte, fui a Guiza, ao jardim zoológico. A entrada para nacionais custa o mesmo do que uma viagem de metro, e a minha, para estrangeiro, foram 2eur. Não há estrangeiros.
Como o preço das entradas é tão baixo, o zoo tornou-se um parque normal, de merendas, para namorar, pedir, dormir, jogar à bola, mas com animais enjaulados lá pelo meio. Tudo sujo e a cair, claro. Vi um homem pescar, à socapa, na vala dos crocodilos; tratadores a pedinchar moedas e os seus macacos amendoins; um pastor alemão que dividia a casota com um chacal; uma gaiola para cocker spaniels (infelizmente já extintos);... Acho que mais depressa esqueço a torre Eifel do que esta visita. Por 1.5eur, um extra, fazemos festas nos leões, metemos a cabeça na boca de um elefante, conversamos com os ursos, e pintamos no focinho a cara do nosso bicho favorito. Uma animação.
Os animais não parecem ter fome, mas, como em todos zoos, é um crime estarem presos só para nos matarem a curiosidade. Vai dar ao mesmo do que ter cães em apartamentos, ver gatos à janela ou periquitos em gaiolas. Tão cedo não vão deixar de existir. É fácil confundir a felicidade de um animal com a sua resignação, então vamos continuar a tê-los.

Vou ficar mais uns dias pelo Cairo. Ainda nem vi as pirâmides. Depois, combinei dar uns mergulhos no mar vermelho. Lavar-me. E quero fazer um cruzeiro foleiro no Nilo. E ir a Beirut. Só não sei quando começo a descer e chego ao Sudão. A este ritmo, gasto o dinheiro todo por estas bandas e tenho de mudar o título para "1/4 de volta ao mundo 80 elias".

Beijos (saudades...)